DESSALINIZAÇÃO DA ÁGUA DO MAR – MEF13868 - BEAP

 

 

MANOEL PAULO DE OLIVEIRA *

 

 

AS TÉCNICAS DA DESSALINIZAÇÃO DA ÁGUA DO MAR

 

                O histórico evolutivo do processo de dessalinização da água do mar para torná-la bebível, a partir do período conhecido como Antiguidade, quando egípcios, persas e gregos já a conheciam, resume-se em dois tipos de tecnologias:

                a) destilar a água do mar, fervendo-a e recolhendo o vapor da água; o fato de fervê-la retira a maior parte de suas impurezas, inclusive os sais, que são deixados para trás à medida que o vapor é liberado;

                b) a segunda tecnologia de dessalinização é a da osmose inversa, que foi se tornando cada vez mais popular a partir dos anos 70, com as seguintes características:

                1. na sua essência, trata-se de um sistema de filtragem;

                2. a água é bombeada e projetada por meio de uma forte pressão contra uma membrana que retém as moléculas maiores de sal e deixa passar as moléculas menores de água limpa. Cabe observar, neste caso, que os filtros são eficientes apenas em parte, porque exige que a água seja pressurizada e passe pelos filtros várias vezes até conseguir ficar limpa.

                Em pouco menos de um século, sabe-se que a Marinha Real britânica já havia construído, em seus navios de guerra, alambiques de destilação de água do mar. Mas, a tecnologia de destilação, tal como a conhecemos hoje, foi desenvolvida inicialmente pela Marinha norte-americana, para que não faltasse água nas suas operações em ilhas remotas do oceano Pacífico durante a Segunda Guerra mundial. Mais tarde, nos anos 50, a destilação em grande escala difundiu-se rapidamente nos países áridos do Golfo, os quais dispõem de petróleo suficiente para produzir a energia necessária para isso. Nos típicos sistemas modernos de destilação, a água salgada é aquecida ao passar dentro de tubos no interior de uma câmara que contém resíduos de vapor de uma usina de energia - uma espécie de radiador ao contrário. A água salgada quente entra então numa câmara despressurizada que reduz a temperatura na qual a água está fervendo que pressiona para evaporar-se. Esse é o princípio denominado de eletrólise.

                No processo de eletrólise, são colocadas placas com cargas positivas e negativas. Em contato com a água salgada, o cloreto de sódio se dissocia e o sódio, que possui carga positiva, é atraído em direção à placa com carga negativa e o cloro, que tem carga negativa, é atraído para o pólo com carga positiva, retirando, dessa maneira, o sal da água.

 

QUALIDADE E CUSTO DA ÁGUA DESSALINIZADA

 

                No processo de dessalinização ocorre perda de eletrólitos. Esses eletrólitos são essenciais no processo de absorção da água pelo intestino grosso humano. Naturalmente que, nos locais de consumo de água dessalinizada, podem ocorrer surtos de diarréia em consequência da dispersão dos eletrólitos durante o processo, provocando alteração na homeostase enterocólica.

                O principal problema das duas tecnologias é que ambas exigem grandes quantidades de energia, traduzindo-se em um custo de produção bastante elevado. Até recentemente, o custo de produção de um metro cúbico (1.000 litros) de água sem sal representava algo equivalente a 100 vezes mais do que o custo de fornecimento convencional de água. A redução do custo de tal monta, em nível aceitável, pode acontecer com a fabricação de melhores filtros.

                As águas salinizadas estão presentes no subsolo de vários países do Oriente Médio, como Arábia Saudita, Kuwait e Israel. Esses países, praticamente, só dispõem dessa fonte para seus abastecimentos. Os técnicos bioquímicos, para a retirada do sal, aplicam as técnicas denominadas de osmose inversa, ou osmose reversa que é um processo de separação em que um solvente é separado de um soluto de baixa massa molecular por uma membrana permeável ao solvente e impermeável ao soluto. Isso ocorre ao se aplicar uma grande pressão sobre esse meio aquoso, o que contraria o fluxo natural da osmose. Entretanto, tal processo é extremamente caro.

                Na dessalinização são gastos US$ 1,50 por metro cúbico e US$ 0,30 no mesmo volume de água doce tratada. Estimativas médias.

                Acontecendo, realmente, a redução do custo, e com o esgotamento das fontes convencionais de abastecimento de água potável e, consequentemente, o seu aumento no preço de abastecimento para o consumidor, a dessalinização pode tornar-se uma alternativa viável, sem haver a necessidade de hidropirataria. Atualmente, estima-se uma capacidade global de dessalinização de 10 quilômetros cúbicos por ano, que pode ser representado por cerca de 3% do abastecimento global em água corrente doméstica. A quase totalidade da capacidade mundial de água dessalinizada continua sendo produzida por processos de destilação, em usinas concentradas, na sua maioria, nos países do Golfo. A capital da Arábia Saudita, Riad, onde praticamente nunca chove e onde não existem rios nem lagos de superfície (oásis?), responde sozinha por aproximadamente 10% da produção mundial de água dessalinizada. Os sauditas, em 2004, anunciaram o planejamento da construção de meia dúzia de novos centros de produção, a um custo total de US$ 5 bilhões equivalendo, hoje (R$ 2,00), a R$ 10 bilhões.

 

A CRESCENTE DEMANDA POR ÁGUA NÃO SALGADA

 

                Embora a tecnologia da dessalinização esteja sendo disseminada com relativa rapidez, em países onde os rios estão secando e onde a demanda está cada vez mais elevada, os custos ainda são bastante elevados. Os locais, como as ilhas de veraneio, onde os turistas estão esgotando as suas reservas, tornaram-se os principais interessados nessa alternativa. Tem-se notícia de que, em Malta, já são obtidos dois terços de sua água potável da dessalinização.

                Assim, nas ilhas gregas, na sua maioria de um total de 3000, como Mykonos, por exemplo, vêm dessalinizando faz tempo. É o caso, também, das ilhas Cayman, de Antígua e das Ilhas Virgens no caribe. Como todo excesso é prejudicial, Chipre bombeou de tal forma suas reservas subterrâneas de água potável que a água do mar invadiu o subsolo através dos poros abertos dentro da camada rochosa - o que fez com que o país, agora, seja obrigado a dessalinizar também a própria água subterrânea. Nos últimos anos, entretanto, até cidades continentais, situadas em zonas áridas, vêm adotando a tecnologia da dessalinização por osmose reversa. Tampa Bay, na Flórida, e Santa Cruz, na Califórnia, já a adotaram. Há notícias de que Houston (Texas) e Cidade do Cabo (África do Sul) também aderiram. Caso grave aconteceu na Austrália, em Perth, onde, desde os anos 70, a seca interrompeu, cortando, em dois terços, o fluxo de água que alimentava as barragens (dams) que abastecem aquela cidade. Por causa disso, para poder continuar a abastecer as torneiras, a cidade decidiu construir uma usina de dessalinização, a um custo de US$ 278 milhões, equivalendo, hoje (R$ 2,00), a R$ 556 milhões. Na Espanha, o governo Zapatero, eleito em 2004, abandonou os planos do seu antecessor, que visavam abastecer os campos ressecados e as piscinas vazias da região Sul, bombeando (transposição) água do Norte, mais irrigado. Em vez disso, Zapatero decidiu construir 20 usinas de osmose reversa ao longo das Costas (que formam o litoral Sul da Espanha), as quais deverão corresponder a um pouco mais de 1% das necessidades totais de água do país.

 

REDUÇÃO DOS CUSTOS DA DESSALINIZAÇÃO

 

                Embora ainda em patamares muito elevados, quando comparados com os custos convencionais da água potável, os custos do processamento de dessalinização da água do mar mais baratos se encontram em Israel, onde a maior usina de osmose reversa do mundo foi construída na orla mediterrânea, em Ashkelon (proximidade do Norte da cidade de Gaza). Ela produz 270.000 metros cúbicos de água por dia. A política de Israel em relação à água é notoriamente pouco transparente, mas o governo garante ter condições de suprir água a cerca de US$ 0,50 (R$ 1,00) por metro cúbico. Se verdadeiro o cálculo de custo, isso representaria cerca de um terço do custo da produção na Arábia Saudita e um sexto do custo típico de dessalinização em vigor 20 anos atrás.

                De modo mais pertinente ainda com relação aos israelenses, esse custo sustenta a comparação com os US$ 0,30 que custa bombear água potável do mar da Galiléia até cidades costeiras como Tel-Aviv, e os US$ 2,00 por metro cúbico que devem ser reembolsados para comprar e transportar água da Turquia.

                Esta queda considerável dos custos, evidentemente, está incentivando cidades que enfrentam circunstâncias menos extremas e climas mais frios e mais úmidos a aderir à revolução da OSMOSE REVERSA. A China, em 2004, já havia anunciado o início da construção de uma usina gigante de dessalinização para abastecer Tianji, a terceira maior cidade do país, cujos 10 milhões de habitantes enfrentam uma falta endêmica de água com o esgotamento dos lençóis subterrâneos e a seca do rio Amarelo. A previsão de sua produção seria de 100.000 metros cúbicos de água do mar dessalinizada por dia, mas que é apenas uma fração das necessidades da cidade.

                A Inglaterra, através da Thames Water (a terceira maior empresa de gestão de recursos hídricos do mundo), anunciou a intenção de construir uma usina de osmose reversa a um custo de 300 milhões de euros (R$ 3,00), equivalendo a R$ 900 milhões, bombeando água do rio Tamisa no estuário e misturando com a água do mar (exceto do mar do Norte), que reduz o custo.

 

 

* Advogado; Economista; Contador; Especialista na matéria; Ex-Professor universitário; Ex-Servidor Público (Economista do Ministério dos Transportes); e experiência de Administração Pública de mais de 40 anos

 

 

 

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